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  • Andrei Moscheto

A eternidade de um sorriso


Eu conheci Doris logo depois que mudei para Curitiba, em 86. Ela trabalhava com meu pai numa concessionária de automóveis no centro. Uma mulher de descendência alemã que sempre tratava a todos com um imenso sorriso, mesmo quando o pirralho ligava pela vigésima vez enchendo o saco pra falar com o pai – o pirralho sendo o meu irmão, claro. Com certeza eu não.


Bem... Talvez eu.


É bem especial lembrar de alguém que, todas as vezes em que seus olhares se cruzaram nesse mundo, ambos abriam sorrisos enormes. Enquanto meu pai trabalhou nessa empresa eles trabalharam juntos e ela foi testemunha ocular de todos os eventos da família. Milhares de vezes, esperando o meu pai sair do trabalho – metade porque estava ocupado, a outra metade porque meu pai é desses pau-de-enchente que vai travando em cada esquina do rio pra papear com as pessoas – Doris e eu conversávamos sobre qualquer coisa. Sobre escola, sobre teatro, sobre alguma coisa nas notícias. Ela genuinamente queria saber e ela alegremente contava sobre sua família.


Depois de muitos anos Doris se aposentou, mas lembro que o contato continuava, porque o carinho sempre foi muito verdadeiro. Lembro de visita-la na casa no Bom Retiro, lembro de comer sua deliciosa torta alemã e de que, depois que ela descobriu que gostei ela fez algumas tortas de presente de aniversário – e eu adorei cada uma delas.


A vida em seu fluxo perpétuo veio.


A pandemia em seu fluxo veio.


E, como o fluxo do mundo não para esperando por nossos desejos, Doris acabou partindo hoje.


Quando soube, fui inundado de uma saudade enorme que estava toda aqui, comigo, e que eu nem sabia. Fui me despedir dela, revi as pessoas que trabalharam nessa mesma firma, vi nas lágrimas e sorrisos de todos que estavam lá que fui um entre muitos que foram impactados pelo mesmo carinho, pelo mesmo sorriso.


Voltando pra casa, fui obrigado a procurar uma padaria e trazer um pedaço de torta alemã pra casa. Sei que não vai ser nem de perto a mesma coisa, mas é só pra celebrar que Doris deixou as nossas vidas mais doces e saborosas e que seu corpo se vai, mas seu sorriso fica.


É lindo saber que pessoas deixam seu carinho e amor pela nossa breve eternidade.


Texto de Andrei Moscheto

imagem livre na internet

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