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  • Andrei Moscheto

A expectativa da Meditação



A expectativa das pessoas em realizar exercícios de meditação são muitas. Há uma ideia, fundamentalmente falha, em que começar a meditar vai estabilizar minha mente progressivamente, como se viver funcionasse igual a joguinho de RPG em que você ganha pontos de experiência a cada nível e vai passando de fase, sempre maior e mais poderoso. Ou ainda, uma mais clichê, em que você vai fazer seus Asanas em lugares bucólicos ou míticos e o poder intrínseco daquele espaço mágico adentrará o seu corpo, transformando o seu esforço em um salto evolutivo no poder de concentração.


A realidade é o telefone que toca, alguém em casa que precisa falar rapidinho com você, um cachorro que quer atenção, a sua cabeça que fica pensando “RELAXA, DESGRAÇADO!”, as tarefas restantes do seu dia gritando para serem atendidas.


Meditar pode ir ficando gradativamente mais fácil? Pode. Mas estar ciente de si mesmo, da sua mente, do seu corpo, pode também deixar tudo gradativamente mais difícil. Por isso, um dos nossos problemas internos mais severos a serem lidados diante da meditação é a expectativa. O que eu vou ganhar com isso? Se eu fizer serei mais produtivo? Se eu meditar 10 minutos tenho x de melhoria de foco, então se meditar 20 tenho 2x de melhoria de foco? Qualquer guru - de internet ou ao vivo - que te prometa isso está mentindo.


Meditação é um processo gradual de “self assessment” (normalmente é traduzido como auto-avaliação, mas o termo avaliação é muito próximo de prova, nota, então eu prefiro a versão ao pé da letra de “acesso a si mesmo”), em que honestamente você se coloca em treinamento da mente e do corpo, para que esse processo ajude ao longo da vida em entender qual o momento que estou hoje.


Meditação é um espelho no qual eu posso pentear a alma.


Estar sozinho consigo mesmo pode te revelar a sua falta de foco, os velhos hábitos, seus preconceitos, aquilo que varremos para baixo do tapete e fingimos que não temos. Se o primeiro passo da meditação é conseguir olhar a si mesmo neste silêncio, o segundo será aceitar enxergar aquilo que você vê.


Eu acredito muito no potencial positivo da meditação, mas sem a expectativa. Sem exigir que algo aconteça, sem demandar que minha mente isso, meu corpo aquilo. Siddhartha Gautama teve um caminho, meu avô teve outro, eu terei outro. Meditar não pode ser desejar um caminho de vida. A meditação tem que abrir a possibilidade de olhar onde estou na minha estrada e sorrir com as minhas falhas para poder continuar.


Andrei Moscheto

Coordenador do Instituto Shukikan



créditos

Imagens originais de Ian Beckley e SHVETS production no Pexels

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