• Wilson Sagae

A Vida de Tempu Nakamura (2)

Por Sawai Atsuhiro

TUBERCULOSE E A BUSCA DE UMA NOVA VIDA

O Japão venceu a Guerra Russo-Japonesa. De qualquer modo, a vida de Saburo na Manchúria foi miserável. Ele bebia água contaminada, se alimentava de comida estragada e usava roupas em péssimo estado.

Após seu retorno ao Japão, Saburo começou a tossir freqüentemente e um dia vomitou sangue. Foi diagnosticada uma severa tuberculose. A morte estava chegando lentamente pois naqueles dias a doença não tinha cura.

Quando teve a sentença de morte, Saburo não ficou preocupado, apesar de esta vez ser diferente. Sua mente forte foi enfraquecendo e ele foi ficando bravo consigo mesmo. Começou a ler livros sobre religão e filosofia e pensava constantemente sobre o significado da vida. Ele procurou os santos do cristianismo e do Zen, mas nenhum deles parecia responder de forma satisfatória a questão básica: “Como eu torno minha mente mais forte?”

Ele ficou decepcionado ao descobrir que mesmo personalidades religiosas famosas não tinham princípios concretos e pragmáticos ou métodos que poderiam ser usados para guiar as pessoas com amor e simpatia. Eles podiam pregar certas idéias mas eles não podiam verdadeiramente ensina-las. Mais tarde, quando Saburo tornou-se o renomado professor espiritual Tempu, ele criou princípios fáceis de serem compreendidos e métodos de unificação de mente e corpo. Ele ajudou pessoas de um modo amoroso e simpático, porque ele tinha passado por um período extremamente difícil durante seu tempo doente.

Um homem ou mulher comuns que caem doentes podem querer ficar em seu país, mas não Saburo. Apesar de tudo, ele fez uma longa jornada de barco, cruzando o oceano Pacífico, até os Estados Unidos, a procura da verdade e da salvação. Mesmo assim, na América ele se desapontou novamente porque ninguém podia responder as perguntas que o torturava.

Em Nova Iorque, ele estudou medicina na Universidade de Colúmbia, sem conseguir encontrar uma solução para seu problema. Ele então cruzou o oceano Atlântico até o Reino Unido, onde ele participou de um caríssimo seminário de psicoterapia. Na conferência, o palestrante concluiu: “Esqueça sua doença. Este é o segredo de se curar dela.”

Saburo não ficou satisfeito com a resposta desse homem, então ele o visitou novamente: “Eu estou perdido. Eu não consigo esquecer minha doença. Por favor, me ensine a faze-lo.”

“Tente e tente,” o palestrante disse.

“Eu tenho tentado muito mas...”

Como o homem não tinha outra resposta, eles começaram a discutir. Saburo ficou ainda mais raivoso. Ele se levantou e chutou a porta antes de deixar a sala, pensando que era impossível ensinar pessoas sem antes primeiro mostrar a elas a fazer o que é pedido. Isso serviu como um catalisador para a evolução de seu método prático de ensinar unificação de mente e corpo.

Não muito mais tarde, um conhecido seu deu-lhe uma carta de apresentação à famosa atriz Sarah Bernhardt. Ele foi para Paris encontra-la em 1911. Bernhardt não era apenas uma grande atriz mas também uma grande filósofa. Quando ele visitou sua mansão ele esperava encontrar uma mulher velha mas Bernhardt parecia não ter mais que 27 ou 28 anos. Sendo que, na realidade, era tinha 66 anos de idade.

“Você parece muito jovem. Você realmente é Sarah Bernhardt?”

“Sim, não existe idade para uma atriz", ela disse sorrindo.

Saburo foi convidado a ficar alguns meses em sua casa imensa, onde belas atrizes e celebridades visitavam seu salão e onde ele pôde ouvir genuínas risadas de felicidade. Foi nesse período que ele entendeu com clareza o valor e importância da risada para a vida humana. Este veio a ser um de seus principais ensinamentos.

Sarah recomendou que ele lesse a biografia de Emanuel Kant, uma filósofo alemão que tinha sofrido de uma doença incurável nos pulmões quando era criança. Kant sofreu grande dor e constantemente enquanto era ouvia constantes reclamações de seus pais. Em uma ocasião, um médico o atendeu quando ele estava doente, “Sua doença, eu sinto dizer, não pode ser curada. Seu corpo está sofrendo, mas sua mente é saudável e não precisa sofrer. Se você não pensar em seu corpo, sua mente fará o que você quiser que seja feito.”

Kant então compreendeu como ele deveria viver sua vida. Ele devia seguir a inclinação de sua mente para fazer o que ele mais queria. E isso era estudar filosofia.

Saburo ficou muito emocionado quando ele leu essa história, e sua mensagem pode ser, mais tarde, refletida no seu Shin shin toitsu-do, “O caminho da unificação mente e corpo”. (Tempos depois, Tempu sensei contou a seus estudantes que ele relembrou da história de Kant quando estava meditando na Índia, o ponto final de sua busca por uma cura para a tuberculose e realização espiritual).

Nessa época, Saburo foi apresentado ao dr. Hans A. D. Driesch, que era um importante pensador alemão e europeu. Saburo perguntou a ele sobre a relação entre corpo e mente, e como tornar sua mente mais forte. O filósofo respondeu: “Este é um mistério muito antigo. Eu vou pensar a respeito, e voc~e pense a respeito. Se algum de npos encontrar uma resposta, será uma grande contribuição para a humanidade.”

O comentário foi muito desencorajador. Tempu sensei contou anos depois a seus estudantes: “E pensava que se eu abrisse aquela porta, haveria um belo jardim repleto de flores. Mas, o que encontrei foi uma grande ravina de desespero.”

Saburo perdeu sua última esperança. Ele decidiu retornar ao Japão para ver sua mãe e morrer como um homem desapontado. Em Marselha, ele embarcou em um navio cargueiro para a China. Ele pensava que poderia morrer durante a viagem enquanto estava deitado em uma cama feita em um mar de amargura.

Quando a embarcação estava próxima do canal de Suez, veio a informação de que um navio de guerra italiano havia afundado no canal, e por isso eles teriam que mudar o caminho e seguir para Alexandria, Egito, por vários dias. O navio baixou âncora no porto de Alexandria, na foz do rio Nilo.

A bordo estava um home das Filipinas, que tornou-se amigo de Saburo. “Você e eu somos os único asiáticos neste navio. Por que não nos tornamos amigos e vamos ver as pirâmides, “ ele disse.

Apesar de não estar com disposição, Saburo foi com ele para o Cairo, onde ficaram em um hotel. Na manhã seguinte, quando Saburo estava nos banhos, ele vomitou uma grande porção de sangue. Ele sentiu tontura e não pode mais ficar em pé. Então ele caiu de cama como se fosse morrer. Apesar disso, seu amigo filipino ainda queria ver as pirâmides.

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