"Cheiro de Dojô"

Eu lembro quando tinha 17 anos e entrei num dojô no Japão, pela primeira vez. Era um dojô de kendô, arte marcial com espadas de bambu. Tinham todos os praticantes perfilados, o sensei (professor) na frente demonstrando a técnica. Todos levantaram em uníssono, respondem o professor em uníssono, treinaram forte. Era algo mágico.


Quando eu conto essa parte da história, sei que muitas pessoas tem duas imagens bastante poéticas. Uma é a desses templos shaolins que aparecem em filme, a céu aberto, com chão de pedra e estátuas por todos os lados - muitos não sabem diferenciar culturas orientais e colocam todas elas no mesmo balaio. Outros, mais conscientes da cultura japonesa, imaginam um espaço interno, todo de madeira, com caligrafia japonesa na parede com ensinamentos milenares. Uma cena tirada da luta entre Neo e Morfeus, no primeiro filme da trilogia Matrix.


Mas não: era um ginásio de escola, bem alto, com um chão com marcas de quadra de basquete. Um cavalete mostrava as anotações do professor para o treino daquele dia. Eu tinha ido lá para conhecer os clubes esportivos da escola, com um colega de turma me apresentando tudo e foi ele que disse as imortais palavras "剣道臭い" (escuta-se "Kendoo Kusai"), que eu pensei que era um elogio a arte marcial.


Não era. Literalmente significa, em tradução muito livre, "o fedor de Kendô".


Eu entendi o que esse colega disse depois, quando entrei na salinha que guardava as armaduras e proteções que se usam, pelos alunos. O cheiro de suor velho parecia até um pouco sólido no ar, ele meio que entrava nas narinas e até pelos olhos. Um azedo diferente, pujante é o adjetivo que passa pela cabeça.


Não é um cheiro que eu estranhava. Mesmo criança, aprendendo judô, lembro do vestiário e seu cheiro peculiar de suor misturado com fragrância de colônia - eram os anos 80. Lembro de cheiro similar no Tae Kwon Do, mas aí tinha um desodorante Avanço - anos 90. Quando comecei a treinar kendô era normal sentir o tal cheiro, mas os colegas - e eu, depois - sentíamos orgulho dele, por significar que tínhamos treinado intensamente.


Nas outras artes marciais que aprendi sempre havia esse cheiro, que não significava falta de asseamento por parte dos responsáveis. Era apenas um cheiro que pairava no ar, uma pequena pós existência do esforço, algo que parecia trazer uma certa dignidade ao espaço.


Quando o Instituto Shukikan abriu, em 2013, ele não tinha "cheiro de dojô" em seus primeiros dias. Mas o esforço contínuo, a prática dos nossos alunos e professores, levou o espaço a ter esse cheiro dentro de algumas poucas semanas.


Quando as nossas aulas foram encerradas em março, devido ao COVID. Em poucas semanas o cheiro foi diminuindo. No dia que o espaço estava completamente desmontado, não tinha sobrado nada do cheiro, porque ele só existe quando há o esforço contínuo, ele é a prova não-material que, neste espaço, pessoas se dedicam a uma arte com vontade e afinco


Desde março, um quartinho da nossa casa foi lentamente se transformando num espaço de treino. É onde dou as aulas online do Instituto Shukikan e, nesta semana, consegui finalmente pendurar o Ki na parede. Ele fez toda a diferença pra sensação de estar num espaço de treino.


Por coincidência, ou não, na noite de ontem, logo após o meu treino pessoal, minha esposa entrou no quartinho para ver se eu já tinha acabado e disse quase que no mesmo tom do meu colega do Japão:


- - Credo, que cheiro de dojô!


Fiquei feliz. Espero que vocês também estejam deixando um pouco de "cheiro de dojô" por onde quer que vocês estejam - e que vocês limpem suas bagunças logo depois.


Texto de Andrei Moscheto

Coordenador do Instituto Shukikan




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