• Wilson Sagae

Flua como um rio

Takashi Nonaka e o Hilo Ki-Aikido Club

(Por Wayne Muromoto)

Takashi Nonaka estava embaraçado. Ele não compreendera a maior parte do que O-sensei, o fundador do Aikidô havia dito em sua palestra e o público aguardava com a respiração suspensa para ouvir sua tradução. Após as boas vindas usuais, o ancião de barbas brancas Ueshiba Morihei lançou-se em um longo discurso a respeito do Shinto esotérico. "Cem milhões de anos atrás, havia os elementos de fogo e água..." dizia O- sensei. E tudo ficou ainda mais imerso em perplexidade depois disso.

Traduzir as palavras iniciais como "boa noite e obrigado pelo convite para vir ao Hawai" era muito simples. Mas para Nonaka, que falava e lia japonês, tudo o mais era misterioso e estranho. Respirando fundo, ele decidiu que a melhor estratégia era ser honesto. Admitiu para o público que não estava entendendo o que O-sensei dizia.

"...E se eu chegar à sua idade, espero tornar-me sábio o suficiente para entender o que ele disse hoje", Nonaka humildemente concluiu. A audiência aplaudiu com força e Ueshiba, que não entendia uma palavra de inglês, balançou a cabeça alegremente.

Mesmo quando Nonaka foi, depois, chamado para traduzir diante de um público do qual fazia parte um ministro Budista que falava japonês perfeitamente, ele sentiu que a honestidade era a melhor política e admitiu sua ignorância diante dos conceitos esotéricos sobre os quais O-sensei estava falando. Mais tarde, no banquete, ele chegou até o ministro e pediu desculpas em japonês: "Sinto muito, o meu japonês foi muito pobre. Não pude compreender o que O-sensei dizia". O ministro respondeu rindo: "Nem eu!"

A história ficou ainda mais engraçada. Quando O-sensei voltou ao Japão, chamou para uma reunião todos seus estudantes mais graduados. Eles pensaram que ele estaria de bom humor. Afinal, acabara de chegar de uma atarefada viagem ao Havaí, uma viagem de sucesso que O-sensei havia feito ao território norte-americano. Mas o que receberam foi uma repreensão. "Qual o problema com todos vocês?" O-sensei despejou. "Vocês nunca entendem o que "Jiji" diz (jiji: o velho, um termo informal pelo qual O-sensei se referia a si próprio). Mas Nonaka-san, do Havaí, entendeu tudo claramente!".

Os estudantes repreendidos se perguntavam quem seria esse Nonaka san. Seguramente, ele devia ser um velho e sábio intelectual, para compreender os prolongados discursos de O-sensei sobre os conceitos esotéricos Shinto. Por isso, quando Nonaka visitou o Japão, os estudantes avançados de O-sensei faziam comentários do tipo "Eu imaginei que você fosse mais velho" que o deixavam perplexo.

Tohei sensei, o principal professor de Nonaka, sabia o que havia acontecido e achou tudo muito engraçado. O próprio Nonaka ainda ri dessa confusão inter-cultural, um dos muitos e cômicos acontecimentos em sua longa carreira no Aikidô.

No início, Nonaka, de 70 anos, era um entusiasta do kendô praticado em Hakalau, que fica próximo da cidade de Hilo, na Ilha Grande do Havaí. Aos 16 anos, ele estava entre os últimos candidatos pré-guerra a shodan ("faixa preta" de primeira categoria). "Naquele tempo, Nonaka lembra, "o kendo era mais forte do que o judô. Nós usávamos o velho ginásio do Colégio de Hilo e fizemos os testes para shodan em julho de 1941. Então nossos nomes não foram enviados para o Japão nem para o Kendo Renmei (organização) do Japão." Assim, quando Pearl Harbor foi bombardeada e a guerra começou, Nonaka não foi detido pela FBI, que havia conseguido uma lista com todas as categorias de praticantes de budo nas Ilhas.

O primeiro budo japonês a ser permitido para prática aberta no fim da guerra foi o judô. Então, Nonaka associou-se a um clube de judô em Honomu para continuar ativo nas artes marciais, mas parou quando casou e passou a ocupar-se com a vida doméstica e seu trabalho.

Nonaka sensei começou com o aikidô em 1955, dois anos depois da primeira vinda de Tohei Koichi ao Havai para difundir a nova arte. Tohei sensei voltara ao Havaí para ensinar e dar seminários e demonstrações. "Eu fiquei impressionado com o que ele dizia", relembra Nonaka. "Me matriculei naquela mesma noite".

Seguiram-se anos de treinamento em aikidô, desde que essa prática buscava seu próprio nicho no Japão e no Ocidente quando Tohei decidiu criar sua própria organização, o Ki No Kenkyukai, à presente consolidação do mundo do aikidô em várias e estáveis organizações.

Como um ex-judoca, Nonaka podia fazer as quedas, por isso Tohei usava-o muito como uke enquanto ensinava na Ilha Grande. Deve ter sido uma honra, para alguém como Nonaka, que era principiante no aikido e não sabia o que ia acontecer toda a vez que Tohei movia-se para agarrá-lo. Tohei apontava para sua lapela ou mangas, com uma ou duas mãos. Assim, Nonaka podia entender que isso significava agarrá-lo com um ou duas mãos. E o fazia. Em seguida, ele voava.

Isso acontecia ,afinal, quando o aikidô ainda era uma arte misteriosa e poucos no Havaí conheciam seus métodos ou suas misteriosas técnicas. Nonaka considera-se afortunado, entretanto, de ter estado com Tohei quando este ainda era um jovem vigoroso de 32 anos. E de ter aberto sua casa para Tohei e O-sensei, porque teve a possibilidade de manter com eles longas discussões através dos anos sobre o significado espiritual e filosófico do aikidô.

"Pude ver a mudança, o desenvolvimento dos princípios de Ki (sob Tohei)", lembra-se Nonaka. "No começo, ele apenas ensinava a técnica. Mas com os anos, pude ver a mudança. Tohei sensei viu que o método de treinamento no Japão não era suficiente. Ele tinha dificuldades para arremessar policiais norte-americanos que pesavam mais de cem quilos. Voltou para o Japão e começou a pensar a respeito de ki..."

"Ueshiba sensei podia fazer todo o waza, podia fazer ki, mas ele estava elevado, acima das nuvens. Era muito difícil de entendê-lo", diz Nonaka sorrindo. Quando ele contou a Tohei que não conseguia entender a filosofia de O-sensei, Tohei sensei disse-lhe para, ao invés de tentar ouvi-lo, observar seus movimentos'.

O que fez Tohei mudar, Nonaka acha, foi encontrar o místico japonês contemporâneo, Nakamura Tempu. Famoso nos círculos japoneses esotérios, Tempu é completamente desconhecido no mundo ocidental do budo, mas seu impacto em Tohei e no Ki No Kenkyukai é imensurável.

Nakamura Tempu havia estudado yoga e outras filosofias esotéricas na India e estabelecido o Tempukai, uma organização baseada no misticismo hindu. O ponto central em seu sistema era o desenvolvimento da respiração ( prana, em hindu) que leva ao fortalecimento do ki. Tohei comparou os conceitos de Tempu com o sistema de treinamento do aikidô que ele havia aprendido com O-sensei e percebeu que havia uma forte semelhança entre os dois. E que ensinar ki baseado em algumas das idéias de Tempu era um meio de fazer com que as pessoas entendesse o que O-sensei estava tentando ensinar.

"O que Tohei estava tentado ensinar eram os princípios de ki. Ki é como um sinal de rádio, você pode direcioná-lo", Diz Nonaka. "Assim, os ensinamentos de Tohei sensei é o waza de Ueshiba O-sensei e a parte mental de Tempu. Ele os juntou".

Ao executar corretamente os movimentos do aikidô, cria-se o ki no nagare, o "fluxo de ki", explicado por Tohei para Nonaka "como um rio, o fluxo da água". Não há ângulos agudos no rio, Ele faz uma bela curva. E treinamos para não interromper o ki".

Nonaka dá aulas

Ele trabalhou como administrador de um laboratório de análises de solo agrícola e plantas em C. Brewer e aposentou-se em 1986. Ele sua esposa Toyomi têm dois filhos. A filha, Anne Gorden, mora em trabalha em West Covina, Los Angeles, e o filho Eric (quinto dan) mora em Oahu, onde é instrutor do Mililani Hongwanji Ki-Aikido clube. Nonaka orgulha-se das conquistas de Eric no aikidô.

Um pouco antes de terminar a faculdade em 1976, Eric foi aceito como um dos uchi deshi de Tohei (estudante residente) por seis meses, e recebeu a graduação de sandan diretamente de Tohei. Sendo americano e o principal uchi deshi de Tohei, ele era levado para toda a parte para ajudar nas demonstrações. Impressionava ver aquele jovem robusto de quase cem quilos ser arremessado por Tohei apenas com o poder de Ki. "Ele (Tohei) adotou-o como otomo (segundo) porque impressionava muito. Assim, Eric pode aprender muito, observando suas demonstrações.

Atualmente, Nonaka é sétimo dan no Ki No Nenkyukai e atua como instrutor principal na Ilha Grande, e com Roy Yonemori como diretor do Hilo Ki-Aikidô Clube. O clube se reúne no Waiakea Recreation Center, na cidade de Hilo, proporcionando aulas para instrutores nas manhãs de domingo, e aulas normais e para crianças quase todos os dias da semana.

Nonaka visitou a Austrália, a Nova Zelândia e Cingapura para dar seminários sobre ki e aikidô. Fazendo isso, ele percebeu que suas habilidades bilíngües foram importantes em seus treinos e ensinamentos de aikidô, apesar de ter se revoltado contra seus pais quando criança quando eles insistiam para que aprendesse japonês: "Agora eu valorizo o fato de meu pai ter-se mantido irredutível quanto ao meu aprendizado de japonês"

Nonaka pode compreender o lado mais profundo da filosofia e da técnica do aikidô, entendendo seus professores japoneses. E também pode compartilhar esse conhecimento com os aikidokas anglofones. Ele acha que esse foi um dos fatores considerados por seus anfitriões da Austrália, Nova Zelândia e Cingapura.

"Quando os instrutores japoneses ensinam, eles ensinam com muito waza (devida à barreira da língua) Mas Tohei despendia um tempo explicando-me a filosofia e os processos."

O que Nonaka mais valoriza das décadas de treinamento em aikidô é também o fato de que "aquilo que aprendemos é aplicável e deve ser aplicado à vida diária. Para mim isso é mais desafiador do que aperfeiçoar meu waza para arremessar alguém. Na minha idade, não estou muito interessado na parte do arremesso".

O que ele aprendeu, em resumo, foi " a relaxar sua mente subconsciente e a ter pensamentos positivos (atitude)...É uma relação pessoa-a-pessoa. Eu poderia aplicar essa filosofia em administração. Administrei um laboratório por 35 anos e nunca tive que demitir ninguém. Tínhamos um equipamento caro. Eu sempre designava a pessoa certa para o trabalho certo."

Além disso, Nonaka soube que seu cardiologista recomendou a seus pacientes que fizessem treinamento de ki para aprender como relaxar. E depois de conversar com representantes da Saúde Mental, um psiquiatra passou a encaminhar alguns de seus pacientes a suas aulas. Nonaka diz que "muitos desses pacientes precisavam mudar seus pensamentos negativos. A diferença entre pensamentos negativos e positivos é uma fina película. Mas quando você treina em conjunto, toda a atmosfera é positiva, por isso você não pode ter uma atitude negativa, então, aos poucos, você muda a atitude negativa para positiva".

Após relacionar alguns outros exemplos de como o ki e o aikidô ajudaram a várias pessoas, Nonaka conclui: "Estou feliz por ser capaz de ajudar a comunidade. Não estou interessado em ensinar 50 crianças pequenas a arremessar ninguém".

Os treinos de Nonaka, entretanto, foram postos dolorosamente à prova dois anos atrás, quando ele foi submetido a cirurgias simultâneas nos joelhos devido a uma séria artrite. Ele passou por substituição total e bem sucedida da cartilagem, embora tenha sido advertido para não pular, girar ou curvar-se. Isso o tem impedido de fazer muitas das técnicas de aikidô em seiza, mas não muito mais do que isso. Nonaka continua voltado para uma agenda lotada de aulas.

Refletindo, Nonaka diz que, apesar de seu treinamento em aikidô, ele sentiu-se deprimido depois da cirurgia. Então, foi à sala de terapia no Queen`s Hospital de Oahu e viu pessoas muito piores do que ele. "Comparado com eles, eu estava ótimo", percebeu Nonaka. "Ali mesmo, trocando meu pensamento, tornei-me positivo. Se o médico me mandasse fazer um exercício 50 vezes, eu fazia cem. Então, o terapeuta disse que eu estava um mês e meio à frente de um progresso normal."

EXERCÍCIO DE RESPIRAÇÃO

Nonaka usa esse exercício para desenvolver a unidade de mente, corpo e ki. Ele coloca seu bokken levemente acima do bokken de Jim Fordham. Então, concentra-se e empurra para baixo o firme (porém não rígido) bokken sustentado por seu parceiro, através de uma expiração, encaixe de quadris e direcionamento de ki, tudo no mesmo instante.

Nonaka analisa o processo de arremsso e diz: "Antes de arremessar alguém ou praticar um waza, você deve:

· relaxar e estender seu ki

· respeitar a força do seu oponente

· descobrir o caminho do ki do seu oponente

· colocar-se no lugar do oponente (ou campo mental)

· então, proceder com confiança

"Você pode fazer o mesmo, na vida diária, nos relacionamentos", diz Nonaka. Quando as pessoas argumentam em voz cada vez mais alta, elas não desejam ouvir os demais. Mas tente respeitar o que as pessoas podem fazer, Em que direção a mente delas está indo? No que ela ou ele está realmente pensando? Então tente ver essa direção, essa posição, passo a passo. Ponha-se no lugar da outra pessoa, tente compreender seu ponto de vista. Então, conduza-o. Afinal, ele não está preocupado em ouvir você."

Para Nonaka esse conselho é persuasivo porque tem um apelo universal: "Essa filosofia é a mesma do falecido Dale Carnegie em "Como fazer amigos e influenciar pessoas". Eu li esse livro três ou quatro vezes! Quanto mais lia, mais eu pensava, ser essa, a mesma filosofia que Tohei está tentando nos passar".

E embora ele declare não entender o significado das falas de O-sensei, Nonaka foi privilegiado com aulas particulares e algumas conversas individuais com o idoso Ueshiba que abriu seus olhos ao aspecto espiritual do aikidô. Ente os conceitos claros de Tohei e as falas críticas de Ueshiba, Nonaka percebeu que o aikidô vai muito além do mero arremessar ou imobilizar pessoas.

Uma vez, O-sensei visitou a casa de Nonaka em 1960 e passeou através do jardim de orquídeas. Isso, fê-lo recordar-se de sua antiga casa em Hokkaido, e então, meditativo, disse a Nonaka: "A vida é como um rio que corre. O seres humanos estão no rio. Alguns estão indo com a corrente. Alguns nadam facilmente e outros se debatem. Ele (Ueshiba) gostaria de ajudar aqueles que se debatem, mas sem pular dentro do rio. Ele fica na margem e atira cordas e corre para cima e para baixo para ver se há alguma cachoeira à frente. Se ele estiver na água com eles, poderá ser pego e não verá a cachoeira. Naquele tempo, não entendi isso", disse Nonaka. Gradualmente, entretanto, ele sente que está começando a compreender os simbolismo de O-sensei.

Uma outra vez, em 1968, em Tóquio, Nonaka, seu filho e sua esposa tinham uma audiência particular com O-sensei e ele aproveitou a oportunidade para fazer algumas perguntas específicas sobre o aikidô.

Por que não existe shiai (competição) no aikidô?

O-sensei disse : "Se houvesse shiai, sempre haveria um perdedor. Ele não ficaria alegre, então ele voltaria a você mais tarde. Então, em vez de bater numa pessoa, ganhar de você mesmo (do seu ego) é mais difícil. Por isso, faça keiko shugyo (treinos austeros).

Nonaka também perguntou : " No livro de Doshu (sobre aikidô) ele diz algo sobre ter prazer na prática, sobre fazer keiko com alegria."

O-sensei balançou a cabeça concordando. "Quando você aprende algo com prazer, capta mais do que quando faz algo sofrendo. Se você tem a intenção de ajudar um estudante, seja uke (aquele que é arremessado)... Uke wa sensei da (o uke é o professor). Dê ao aluno a chance de relaxar, então você se move."

Essa lição fez Nonaka lembrar de palavras de Tohei:

Sempre há três meio para ganhar de alguém:

Pela força bruta, mas a pessoa nunca esquecerá isso e irá retornar a você.

Pela inteligência. Você o engana. Digamos que você cave um grande buraco, e quando ele vier atacá-lo cairá. Mas ele também não vai esquecer isso e você não poderá enganá-lo de novo.

Vencendo a pessoa mostrando-lhe que a respeita. Mas você deve mostrar primeiro que tem respeito para poder conquistar o respeito do outro. Essa é a verdadeira vitória, e deve vir do coração .

Esse espírito magnânimo é chamado por Tohei de intoku, e é semelhante aos ideais budistas e cristãos de amor incondicional e compaixão.

"Assim, o cassamento não é 50/50. É 100%-100%. Você dá 100% e sua esposa dá 100% , e os dois lados totalizam 200%. Tenho que ficar me lembrando disso. Tenho que praticar aquilo que prego!"admite Nonaka com humildade.

Até agora, apesar de aposentado para proteger seus joelhos, Nonaka não parece disposto a abandonar os treinos. "Quando eu vou a um dojô novo, agradeço às pessoas, porque estou compartilhando minhas experiências, mas também estou aprendendo algo novo para levar adiante. Por isso, essas pessoas são meus professores. Ajudar é a melhor maneira de agradecer pelos favores de Tohei. Tudo o que aprendi com ele, posso passar aos outros".

(trad. Noemi Osna)

0 visualização