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  • Andrei Moscheto

Você TEM QUE fazer isso!

“Não acredito que você ainda não viu essa série! Você TEM QUE ver!” “É o livro mais importante da nossa geração, você TEM QUE ler!” “É muito engraçado esse filme, você TEM QUE ver!” “Como que você não viu esse meme? Tá em todas as redes, você TEM QUE ver!” “Mas esse jogo é muito legal, você TEM QUE..” “O melhor podcast, você vai gostar, você TEM QUE...” “Ah, vá! Esse artigo foi compartilhado de todos os lados, você TEM QUE...” “Um novo app, mais moderno, você TEM QUE...” “...você TEM QUE..” “...você TEM QUE..” “...você TEM QUE..” A era do acesso trouxe para todos o benefício de poder acessar vinte bibliotecas de Alexandria por dia. Temos como descobrir o funcionamento do pâncreas em vídeo de realidade aumentada ou podemos assistir uma garota vietnamita costurando em tempo real. Temos acesso aos principais jornais do país, do continente e, se quiser acesso a jornais de outros países, o seu navegador pode deixar o conteúdo traduzido na sua língua. Podemos fazer tudo! Mas não dá pra fazer tudo. Não dá pra ver todos as séries, filmes, memes, artigos e ainda ter uma vida profissional, familiar, amorosa. É impossível e, quanto mais cedo você fizer as pazes com isso, melhor pra você. Quando a internet ainda era discada, minha amiga Márcia perguntou na mesa do boteco se alguém tinha assistido um vídeo específico do canal Mundo Canibal, o mesmo que depois criou um v


ídeo famoso chamado “Avaiana de Pau” (você não viu “Avaiana de Pau”??? Você TEM QUE...) Como ninguém tinha visto, ela começou a descrever o vídeo pra gente com uma excelente riqueza de detalhes e todo mundo riu pensando no vídeo – minha amiga contando era mais engraçado que o próprio, que eu fui ver depois. Lembrei dessa história porque deveria ser super normal, num grupo de amigos ou conhecidos, que a gente não tenha passado exatamente pelas mesmas referências e que, ao falar sobre algo que você gosta e que a outra pessoa desconheça, você queira contar sobre ela. Parece algo inerente a condição humana: compartilhar sua história. Mas a tecnologia plagiou essa humanidade de nós com o botão compartilhar e agora é mais fácil mandar link do que falar sobre, e não é a mesma coisa. O vídeo que a Márcia assistiu era muito mais engraçado do que o mesmo vídeo que eu fui assistir depois, porque ela assistiu o vídeo com os olhos dela, a experiência dela, e isso eu não tenho. Quando um amigo diz que “você TEM QUE” é seu jeito de dizer que “você poderia passar pela mesma experiência que eu passei, que teve impacto em mim”, e isso deveria ser a nossa deixa para puxar o assunto e pedir pra pessoa contar sobre essa experiência, em vez de colocar mais um link na pilha de links infinitos da biblioteca de Alexandria de hoje. Algoritmos de aplicativos foram programados para nos soterrar de vontades e desejos, pois perante a impossibilidade de solucionar essa questão, o consumo é a solução temporariamente anestésica paliativa. As máquinas começaram plagiando a gente e agora a gente fica imitando as máquinas. Nesta semana você TEM QUE se permitir momentos de silêncio. Se este texto te fez refletir, não compartilhe: converse com um amigo sobre o assunto. É muito melhor colecionar amigos do que links. Andrei Moscheto Coordenador do Instituto Shukikan PS – Este artigo foi inspirado na lembrança da Márcia Maggi contado sobre o vídeo e na música “Welcome to the Internet”, de Bo Burnham.


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